sábado, 2 de fevereiro de 2013

Bruxa

Ando pensando muito numa coisa. E descobri que eu sou uma bruxa.
Pois é. Bruxa. De chapéu, vassoura, verruga na ponta do nariz, vestidão preto, cara verde, daquelas completas. Ruim, raivosa. 
Quem segue a carreira acadêmica devia saber que, a cada passo da jornada, a gente aprende... feitiçarias. Macumbas. Vudus! No mestrado, recebe um sabre de luz; no doutorado, vira Lord Sith e ganha um sabre de luz... duplo! 
Nesses anos todos, aprendi a feitiçaria da bolsa da Fapesp, a macumba da aula de concurso, o vudu da maledicência, o desaparecimento em horas estratégicas ( e a aparição também), o teletransporte de documentos, a descoberta de livros mágicos, a invocação dos mortos (o que é o ritual da citação e a montagem da bibliografia "cala-boca-do-leitor"?) enfim... todo um aparato da bruxaria. Uma verdadeira Harry Potter. A minha raiva, a minha ambição, muitas vezes turvaram meu olhar, e me trouxeram n problemas. Porque é evidente que toda macumba, todo feitiço, é nada perto da verdadeira magia: o amor. Tá, vocês podem dizer, mas isso é papo de auto-ajuda, é ficção barata, conversa pra boi dormir.A nega fica 17 anos no lado negro da Força e vem agora falar que amor não é tudo mas é 100%? Pois é. Resta saber se eu vou conseguir juntar caldeirão, gato preto, livro mágico, vassoura e casinha de biscoito de gengibre, e passar pro lado bom da Força. Mas eu preciso.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pinterest

Alguém me socorra dessa nova mania ( olha lá as novidades): pinar boneco de feltro.
https://pinterest.com/lorientalzaffir/

Novidades

Não sou uma pessoa que lida bem com novidades.
Mas até eu, velhota e ranzinza por natureza, preciso de mudanças. Esses dias, andei pensando que um dos principais desafios que enfrento é que, por amor à rotina, acabo tolerando até o talo situações meio complicadas. Depois meu coração fica saturado, cansadíssimo, e eu fico brava comigo mesma, por ter suportado aquele martírio por tanto tempo.
Enfim. E as coisas mudam, mesmo com o meu apego, nostalgia e dificuldade de lidar com o novo.Sinto falta de tanta gente, de tanta coisa...pra mim as coisas mudariam o mínimo. Mas não dá pra ser assim.
Falei com um amigo querido essa semana, que às vezes os tempos se misturam na minha cabeça... eu ando pela rua e sinto a fisgada de um sonho de 2010... outro de 2003 aparece, assim como uma lembrança, uma ideia, um projeto, um desejo, uma alegria, um plano diabólico e outro nem tão diabólico assim. E a saudade de fulano. A saudade de beltrano. O dia em que sicrano me encontrou no Café Regina. A cara de alegria da filhinha da amiga, quando chegou na minha casa e tinha uma boneca de pano esperando por ela, sentada no sofá da sala.
Isso às vezes me deixa uma pessoa triste, com um peso muito grande no peito. Faz pouco tempo, me ocorreu que eu podia fazer um acordo comigo mesma: trocar uma lembrança antiga por uma experiência nova em folha. Uma dor, uma ausência, por algo tinindo, reluzente... cheguei a escrever algo assim pro Meio do Caminho, ano passado. Será que eu consigo, passar por cima dessa memória tão infalível quanto seletiva, tão terrível pra lembrar do dolorido mas tão ineficiente pra guardar o contentamento? É preciso tentar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Aquário

Henri Matisse (1869-1954), 1911. Óleo sobre tela, 40 x 95 cm. Moscou: Museu Pushkin.

Porque parte das minhas funções é fazer pessoas gostarem deste tipo de objeto. Ainda bem que segui  minhas vocações.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Linha, botão, agulha

Ano passado, recebi uma nova incumbência do destino. Além de dar aula, escrever e cozinhar, aprendi a costurar. Pois é. Eu, que nunca me sobressaí no campo "atividades manuais", comecei a pôr a linha na agulha, pra casear feltro, e fazer bonecos, bonecas, bichos, pra doar pra crianças carentes do Brasil inteiro. É, caros leitores: a panda, agora, além de ler a Comédia, preparar aulas sobre a História da Música brega no Brasil, assar biscoitos amanteigados e ouvir música sem parar, "costura para fora". 
Nessa empreitada tenho uma fada-amiga-madrinha. A pessoa, que para todos os efeitos já conquistou um lugar especial no Paraíso, ao lado do tiozão e de Buonarroti (a paixão dela, posso com isso?), me viciou na compra de linhas de pesponto, botões coloridos e bastões pra pistola de cola quente.
Vai daí, que comecei a frequentar assiduamente um tipo de estabelecimento comercial que sempre me fascinou, e frustrou ( porque eu nunca tinha nada pra comprar): o armarinho. O lugar sagrado das compras de alfinetes, tesouras, tecidos, e o mundo encantado das quinquilharias de costura.
Pra uma pessoa com tendências ao TOC como eu (transtorno obsessivo-compulsivo, vulgo "tenho que ter todos os mp3s do Roberto Carlos") é a realização suprema a compra da nova cor de linha de pesponto, ou do paninho da moda para vestidos de boneca (não sei se vocês sabiam, mas o mundo das bonecas também tem suas tendências, seus São Paulo Fashion Weeks).Pronto: lá vai a panda no seu caminho por todos os armarinhos e empórios da urbs. Onde se compra feltro Santa Fé mais barato? Onde que tem tesoura de picotar mais barata? Onde que tem a lã com cor incrível pro cabelinho da nova criação bonequística? Enfim.
Nisso aí, já lancei uma coleção de gatos tortos, sacis simpáticos e bonequinhas de vestido de estampa de havaianas. Agora é isso, caros senhores: eu tenho já a coleção completa da revista russa Pretty Toys Handmade, cinco caixas de aviamentos, duas de tecidos e não sei, sinceramente, onde vou parar, nessa minha nova profissão de bonequeira. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ex

Sou uma pessoa de sorte. Tenho saúde, trabalho no que amo, família excelente e amigos de verdade. Minhas amigas são as irmãs que não tive: queridíssimas, me apóiam em tudo. Me sinto amada e feliz, por ter as encontrado. Uma delas, a flower, teve durante muito tempo um debate sério comigo. Segundo minha florzinha-irmã, ex bom é ex morto. Ponto. Pra ela, não dá pra ser amiga de ex-namorado, de ex-rolo, ex-ficante, ex-paixão platônica, ex-qualquer coisa que tenha envolvido sexo, amor, paixão ou as três coisas juntas.Eu nunca concordei com ela, e sempre argumentava, dizendo que eu conseguia manter um bom relacionamento com os homens com os quais me envolvi, ou gostei, ou sei lá o quê ( vocês me entendem). 
Achava que a pequena flor, bem mais passional e impulsiva que eu, nesse ponto era menos razoável. Sempre me considerei a melhor das ex: eu sumo. Não ligo, não escrevo, não envio SMS, não dedico post em blog, não chamo pra conversar em chat e não curto nada, NADA, do que os indivíduos postam no Facebook. Simplesmente, não me meto na vida deles. Respeito o espaço sagrado das atuais. Não encontro ninguém, não mando nem Feliz Natal. Se o cara me procura, por alguma eventualidade ou outra, sou cordial e gentil, mas não me alongo em nada. Dessa forma, eu pensava, dava pra tê-los em círculos virtuais, compartilhar amizades, espaços profissionais e sociais, com dignidade e até um certo laço de respeito.
Pois bem, meus caros leitores.Agora vai. Declaro, para os devidos fins, que a flower estava completamente certa. Não dá pra ser amiga de ex. Ainda mais dos meus, que conseguem ser péssimos na manutenção de relacionamento social, distante, esporádico e virtual, sempre ocasionado pela iniciativa deles, diga-se de passagem.
Começou que meu feed de notícias foi soterrado de fotos, status de foursquare, twitters, fotos no instagram e toda a parafernália virtual, que as atuais produzem a todo momento, pra mostrar a felicidade suprema vivida ao lado destes supracitados cidadãos. Entendo que a felicidade no amor é a coisa mais linda do mundo, e que tem que ser espalhada mesmo. Entendo que, pra elas, eu devo estar entre os flagelos que Deus largou neste mundo sub-lunar, como os maremotos, as pestes, a música do Michel Teló e a carga tributária brasileira. Entendo que minha mágoa, ressentimento, inveja, saudade ou despeito podem também afetar a minha leitura de certos acontecimentos. Compreendendo todos esses quesitos, por meses e meses a fio fui brindada com todo tipo de informação a respeito dos atuais relacionamentos: jantares, almoços, viagens, etc. e etc.
Percebi que aquilo estava me deixando triste. Por mais que eu entenda que acabou, por motivos vários, que deseje a felicidade de meus semelhantes, e que me esforce ao máximo para não desmentir Jean-Jacques Rousseau, considerei que até o filósofo suíço chegaria à conclusão que aquilo era demais para a manutenção da crença na bondade humana. Pensei no legado de Dante e resolvi retirar do meu feed tal noticiário.
O alívio foi muito grande; sei que as criaturas estão vivas, e só. Desejo toda a felicidade, amor e sorte do mundo pra eles; ouvi um pouco de Adele, chorei e boas. 
Mas não! Chega email com rolo mal resolvido de trabalho; vou, e com toda a delicadeza do mundo, resolvo, sem entrar em maiores detalhes; resolvido o pepino, nada mais. Mas não! Chega curtida em status aleatório. Ignoro. Telefonema! Trato bem mas gasto em torno de 2 minutos numa conversação tão educada quanto insípida. Chega comentário engraçadinho, e mais um monte de pequenos transtornos.
Pensei em fechar meu perfil, transformá-lo num verdadeiro túmulo do samba, pra ver se as atuais, entre um post e outro, foto no instagram e viagens cheias de amor e comentadas à exaustão, não tendo mais acesso à nenhuma informação da minha panda pessoa, cada vez mais de saco cheio desses dramas de classe média brasileira, sosseguem o facho e façam dos meus ex os homens mais felizes do mundo. Um querido, ex-aluno e agora amigo, mandou a letra: pra que você tem que se esconder ainda mais? Você taí na sua, lendo Dante e costurando gatinhos. Nada, nada na minha vida, em todos os aspectos, é absolutamente relevante e interessante pra essas senhoritas. Quanto a eles, enfim. Faço votos sinceros que a gente se encontre na fila do Juízo Final.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Libertas quae sera tamen



Minas é logo ali do lado. A maior cidade do sul de Minas é Campinas. Pois é, Minas. O mar de morros verdinhos guarda lembranças e pessoas muito amadas. Vi o surgir de 2013 na terra do pão de queijo, e foi muito legal. A liberdade, ainda que tardia, vale demais a pena. E, hoje, sentei na mesa do meu irmão, e comecei a cortar os monstrinhos e gatinhos de feltro que vão pra primeira doação do ano, e comecei a cantar, sem nem me dar conta, uma canção muito antiga (pois é, a panda sempre se entrega nessas), Seguindo no Trem Azul, do Roupa Nova. Pode, produção? 
http://www.4shared.com/mp3/XbIBP6FM/SEGUINDO_O_TREM_AZUL_-_ROUPA_N.htm